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Biblioteca Nacional guarda relíquias em cofres com direito a guardiã

25 JUN 2018
25 de Junho de 2018

A instituição é a sétima maior do mundo, sendo a maior biblioteca da América, e possui um acervo riquíssimo, integrado por obras únicas

                                                                                                                                                                                           Guardiã do tesouro - Ana Virginia, chefe da divisão de obras raras da biblioteca nacional - Marcio Mercante 

Forjada pelas próprias mãos do pai da imprensa, o inventor alemão Johannes Gutenberg, a Bíblia de Mogúncia, impressa em 1462, é uma das preciosidades que a Biblioteca Nacional (BN) guarda a muito mais do que sete chaves. A instituição é a sétima maior do mundo, sendo a maior biblioteca da América, e possui um acervo riquíssimo, integrado por obras únicas. Mas sua coleção continua sendo ignorada por acadêmicos brasileiros.

 

"Muitos pesquisadores ainda pedem bolsa patrocínio para buscar em Portugal originais que temos aqui no Rio de Janeiro", lamenta a chefe da Divisão de Obras Raras da BN, a bibliotecária Ana Virgínia Pinheiro. A Biblioteca, que ficou quatro anos coberta por tapumes e lonas, por causa das obras de restauração da sua fachada, entregue dia 18, aos poucos vai disponibilizando suas obras para o público. "Esse tesouro precisa ser valorizado pelo pesquisador. Para ele desvendar uma série de questões históricas", conclama Ana Virgínia. No entanto, ver de perto peças cujo valor é incalculável de tão raras, como a Bíblia de Mogúncia, é privilégio para poucos. O pesquisador terá que se submeter a um desencorajador ritual, que passa pela autorização da Polícia Federal, cujo último e, praticamente, intransponível obstáculo é nada menos do que a própria Ana Virgínia, a 'Guardiã da Bíblia'.

 

"É um item de cofre. Só sai em circunstâncias especiais. É o que chamamos de livro monumento", justifica a chefe de Obras Raras. Segundo ela, o pesquisador deve apresentar o projeto antes de a abertura do cofre ser agendada. "Se for só por curiosidade, não vai ver. Tem que ter um projeto sério", avisa Ana Virgínia. A Bíblia de Mogúncia é realmente cercada de cuidados. Tanto que, desde 2004, quando a 'Guardiã da Bíblia' assumiu o posto, a obra só saiu duas vezes do cofre forte, onde é mantida junto a outros tesouros. "Não posso detalhar o cofre", explica ela, deixando escapar apenas que é igual ao do banco. "É com senha, com segredo e ignífugo (à prova de fogo)".

 

A última abertura foi no ano passado, quando o impresso mais antigo dos cerca de 10 milhões de itens que integram o acervo da BN foi exibido ao público, durante a exposição pelos 500 anos de Lutero. Alas inteiras da biblioteca foram isoladas para a passagem da obra e dois policiais federais foram escalados para escoltá-la durante todo o tempo em que ficou fora do cofre.

 

Segundo Ana, a de Mongúcia, feita em 1462, é a segunda bíblia impressa no mundo. "A primeira foi a de Gutenberg, conhecida por esse nome porque ele começou e concluiu o trabalho", explicou. A de Mogúncia foi batizada assim por ter sido impressa na cidade de Mogúncia, Alemanha, terra natal de Gutenberg, que iniciou a confecção da obra, mas não finalizou. "Ele foi tirado da sociedade por seus parceiros, por conta de dívidas", disse Ana Virgínia, afirmando que existem menos exemplares da Bíblia de Mogúncia do que da Gutenberg. "E nós temos dois", conta, sem disfarçar o orgulho.

 

A Bíblia de Mogúncia integrava a biblioteca real de Portugal e veio para o Brasil com a família imperial em 1808. "Mas ficou aqui porque compramos. Foi parte da negociação para o reconhecimento da independência do Brasil", salientou Virgínia. Ela considera a hipótese de que elas foram incorporadas ao acervo real depois do terremoto que destruiu Lisboa, em 1775. "A biblioteca real era umas das maiores da Europa e se perdeu porque também teve tsunami que arrasou Lisboa. Para reconstruir, muitas coleções foram tomadas de inimigos políticos, assim como muitas foram doadas em troca de títulos de nobreza ou benesses reais. Os dois exemplares entraram dessa maneira no acervo", acredita Ana Virgínia.

 

Existem muitas lendas em torno da Bíblia. Como ficamos com dois exemplares, conta-se que um milionário americano, que seria da família Rockefeller, ofereceu uma fortuna por um deles. Também dizem que uma universidade americana considerou a possibilidade de construir uma sede hiper moderna para a Biblioteca Nacional, no local que os gestores públicos escolhessem para acolher adequadamente o acervo em troca de um exemplar.

 

"Nunca se encontrou documento que comprovasse isso. É história que corre de boca em boca", afirma a guardiã. A Bíblia foi impressa em gótico bastardo (tipo de letra ideal para pergaminho), em duas colunas, com pergaminho de primeira qualidade, "que é do lombo do animal e tudo que se vê em cor é acabado com a mão", destaca. Segundo ela, os dois exemplares da Biblioteca são de tiragens diferentes. É que naquela época as letras capitulares eram desenhadas por artistas, e os nossos exemplares tem justamente diferença de acabamento artístico. "Numa delas não há referência ao trabalho tipográfico, mas na outra diz que foi produzida por máquina inventada por Gutenberg", diz Ana Virgínia, apontando outra diferença. Cada exemplar tem dois volumes, com 42 cm de altura e cerca de 15 cm de espessura. O peso gira em torno de cinco quilos.

 

Os exemplares da Bíblia de Mogúncia são os impressos mais antigos da Biblioteca Nacional. Porém, o acervo de obras raras conta com outros patrimônios da humanidade, que não têm preço. Entre os quais, a primeira edição de um dos maiores clássicos da Língua Portuguesa: 'Os Lusíadas', escrito por Luis de Camões e impresso pela primeira vez em 1572. Outro tesouro é 'A crônica de Nuremberg', de 1493, considerado o livro mais ilustrado do século 15, com mapas xilogravados tidos como os mais antigos em livro impresso. E ainda temos a primeira edição da 'Arte da gramática da Língua Portuguesa', escrita pelo padre José de Anchieta em 1595.

 

Todo o zelo pela segurança das obras tem sentido, pois entre os anos de 2003 e 2004, durante greve na instituição, mais de mil peças foram furtadas da BN. Entre elas, 369 fotografias que integram a Coleção Dona Thereza Cristina Maria - formada pelo imperador Dom Pedro II - e que fazem parte do 'Registro da Memória do Mundo', da Unesco, desde 2003. Recentemente, foi descoberto que oito litogravuras de Emil Bauch (1823-1874), que estavam no acervo do Itaú Cultural, em São Paulo, desde 2005, eram as mesmas que tinham sido furtadas da Biblioteca Nacional no ano anterior. O Itaú devolveu estas obras e outras 30, também suspeitas de pertencerem à BN, que estão sendo periciadas.

Via: O Dia
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